Terça-feira, 15 de Setembro de 2009

Harmonia

 

“No século VI antes de Cristo, os pitagóricos chamavam a atenção para a harmonia existente no Cosmos. Segundo a escola pitagórica os números são a causa material do universo e estão na base de um mundo regrado, ou com medida. A medida é encontrada na relação dos opostos e o princípio da harmonia é revelado exemplarmente na música. Assim, as relações musicais entre todos os seres do Universo são o modelo perfeito da harmonia. Qualquer corpo produz um som musical: tanto os terrestres, como os celestiais. Nós não a ouvimos, porque estamos tão habituados a ela, que não a conseguimos distinguir.

A alma humana também é harmonia, entre os elementos opostos que constituem o corpo, e vai transmigrando até atingir um grau de pureza que lhe permita a fusão com a unidade originária.”

Ana Cristina Alves


No seu livro “Uma viagem de muitos quilómetros começa por um passo” Ana Cristina Alves observa que a escola pré-socrática de Pitágoras, segundo alguns estudiosos, sofreu a influência do Oriente. Esta autora fala-nos de Huainanzi que “teve o mérito de desenvolver uma teoria da harmonia, ou ressonância mútua, que nos deixa olhar para a vida em termos musicais e muito afectivos, já que esta capacidade dos seres sentirem e darem resposta ao que sentem, é espontânea, quer dizer, situa-se a um nível intuitivo, ou mesmo, instintivo.”

É esta harmonia do Cosmos que nos permite falar em coincidências: “Os pequenos milagres em que Deus prefere ficar incógnito”. Quando olho para trás, a minha vida parece-me uma sucessão de pequenos e grandes milagres. Quando reflicto no puzzle da minha existência e observo as peças mais escuras, que na altura pouco sentido faziam, vejo agora como tudo se encaixa numa perfeita harmonia – a harmonia do Universo.

 

Soube-me bem: Toda a alegria que tenho sentido nestes últimos dias: No dia 11 o dia "mais que especial" do Afonso (quandodeusdeixoudeolhar.blogs.sapo.pt/6484.html )e ontem, a entrada do Tiago no curso que queria ( neste caso, diria, um dia mais que especial é pouco...). É uma felicidade enorme a que estou a sentir.

Foi inspirador: Ver as fotos que o meu amigo Pedro Lima me enviou da sua amiga www.flickr.com/photos/22185309@N03/show

Agradeço: Todo o caminho percorrido, toda a coerência do Universo, todos os milagres vividos.

 

 

 

 

publicado por descobrirafelicidade às 12:48
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Sábado, 5 de Setembro de 2009

Polaridade

                                               Beleza multicor

 

Glória a Deus pelas coisas salpicadas

Pelos céus de duas cores qual vaca malhada

Pelos sinais rosados que pontilham as trutas a nadar

Cascatas de castanhas acabadas de assar

Asas de tentilhão

Paisagens divididas e recortadas – cerca, pousio e arado

E todos os ofícios, apetrechos, aparelhos e preparos

Todas as coisas contrárias, originais, parcas, estranhas

O que é instável, sardento (quem sabe como?)

Depressa, devagar, doce, amargo, brilhante, fosco

Ele gera aquele cuja beleza resiste à mudança

Que seja louvado

                                                                               Gerard M. Hopkins

                     

Este poema é um hino à vida e grandiosa polaridade do Universo. O Cosmos é, de facto, uma dança de pares estreitamente associados: Céu/Terra; coração/razão; sombra/luz; tristeza/alegria; noite/dia; vida/morte…

Estar vivo é ter consciência de que, como observa Eric G. Wilson, no seu livro “Contra a felicidade”, não se pode experienciar felicidade sem melancolia, nem esperar que o sol brilhe o tempo todo.

Esta polaridade do Universo é um dos alicerces do pensamento chinês: Um pensamento não dualista baseado na relação. Para ele não existe separação, mas sim um processo, uma polaridade entre dois elementos que não podem existir um sem o outro.

Lembrarmo-nos que o inverno mental é uma parte inevitável da nossa existência e que os raios de sol só aparecem após a noite, ajuda-nos a colorir o amanhã.

 

Soube-me bem: O tempo com tempo.

Foi inspirador: Reler este poema. É, de facto, um poema que me entusiasma sempre que o leio.

Agradeço: A polaridade do Universo.

 

 

publicado por descobrirafelicidade às 17:24
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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

O "justo meio"

 

     

Em vez de sucumbir à tentação fácil de cuidar dos galhos, parte mais visível e agradável para olhar, é preferível cultivar a raiz da árvore, que tirando vida e alimento do mais profundo da terra enquanto cresce em direcção ao Céu, é a imagem perfeita da sabedoria chinesa, do seu senso de equilíbrio, da sua confiança no homem e no mundo.”

                                                                                                                             Anne Cheng

                                                     

                                 

 

                Zhong Guo é como se denomina a China em pinyin (a ortografia oficializada em 1973 pelas Nações Unidas, colocada à disposição dos não-chineses). Significa literalmente “país do meio” e os seus grandes pensadores teriam gostado, certamente, que fosse também o país do “justo meio”.

                Como nos diz Anne Cheng a tradução de Zhong é ao mesmo tempo nominal e verbal. “Enquanto substantivo é o caminho justo que comporta o lugar adequado e o momento propício, enquanto verbo, é o movimento da flexa que trespassa o coração do alvo.”

                Sinónimo de moderação e sincronização das acções humanas com as forças do Universo “o Meio não é um ponto equidistante entre dois termos, mas o pólo cuja atracção nos puxa para o alto.” Um pólo que cria na nossa vivência a vontade de nos aperfeiçoarmos cada vez mais.

                Para Confúcio o homem não é bom nem mau: Ele é simplesmente "aperfeiçoável". Quando nascemos somos como as pedras que os artesãos transformam, posteriormente, em objectos extremamente refinados. O homem define-se, justamente, pela capacidade de se aperfeiçoar até ao infinito. Há que cuidar das raízes para chegar ao céu.

 

                Soube-me bem: Caminhar e almoçar à beira-mar; chegar a casa, ligar o computador e sentir-me acolhida ao acolher a Marta e a Nucha.

                Foi inspirador: Receber o e-mail da Eduarda transbordante de energia e gosto pela vida; um bálsamo, pessoas como a Eduarda.

                Agradeço: O acolhimento que hoje senti.

 

      

publicado por descobrirafelicidade às 18:26
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Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Um olhar sobre o pensamento antigo chinês

 

A China é aquele Outro fundamental sem cujo encontro o Ocidente não pode tomar verdadeira consciência dos contornos e limites do seu Eu cultural.”

Simon Leys, Ensaios sobre a China


No início do século XXI ainda parece dominar no Ocidente a imagem de uma China com um pensamento radicalmente diferente, decorrente de uma tradição despótica e de um isolamento secular.

E no entanto… As culturas estão de tal forma ligadas entre si que deveríamos desconfiar de quaisquer (di)visões binárias.

É justamente na interdependência existente entre tudo e todos nós que o pensamento antigo chinês alicerça a sua construção. Esta interdependência é visível nos próprios textos dos pensadores chineses cujas ideias se desenvolvem num grande jogo de remissões. Os textos não constituem sistemas fechados: O seu sentido é elaborado na rede de relações que entre eles se estabelece. Pode dizer-se que o pensamento chinês procede em espiral, aprofundando, cada vez mais, o sentido de uma lição ou de um ensinamento. Aliás, os textos, na educação chinesa, são primeiramente memorizados e depois aprofundados continuamente seja pela consulta, comentários, discurso, meditação – são objecto de uma vivência. Não existe a preocupação em descobrir uma verdade de ordem teórica, mas sim de ordem prática. O pensamento chinês não é da ordem do ser, mas de um processo em desenvolvimento que se afirma e aperfeiçoa na fluência do seu percurso. O seu objecto principal é a procura da harmonia, coerência, equilíbrio. Harmonia nas relações dos homens entre si e na sua sintonia com os ritmos do Universo.

O mundo é percebido como totalidade, a partir do interior dele mesmo (não há razão fora do mundo), numa relação contínua entre o todo e as partes que o constituem. Esta percepção tem a sua representação privilegiada na figura do Yin/Yang: Caminho de um ponto que nasce ao passar pelo Yin e depois, maduro, se transforma no Yang, acabando por descrever um círculo, imagem por excelência da globalidade.

No pensamento chinês não existe separação, mas sim uma polaridade entre dois elementos que não podem existir um sem o outro. “Cara” não é o contrário de “coroa”. Trata-se de uma só e única peça que tem dois lados.

A unidade procurada pelo pensamento chinês é a própria unidade do sopro (Qi), a energia vital que anima o Universo inteiro. É na função reservada ao Qi que se manifesta mais eloquentemente o tema da comunhão com o Universo. Cada um de nós está ligado a tudo o que existe, pois está animado pelo mesmo “sopro”. Mais ainda do que o sopro que anima os seres vivos, o Qi é o princípio da realidade única e una que dá forma a todas as coisas e todos os seres no Universo: O princípio unificador que permite explicar a infinita multiplicidade. Assim, não existe demarcação entre os seres humanos e o resto do mundo.

Ao mesmo tempo espírito e matéria, o “sopro” assegura a coerência orgânica da ordem dos vivos a todos os níveis. Sendo eminentemente concreto ele não é, no entanto, sempre visível ou tangível: “Pode ser o temperamento de uma pessoa ou a atmosfera de um lugar, o poder expressivo de um poema, ou a carga emocional de uma obra de arte”1.

O Qi na sua forma material é leve, forte, subtil e flutua no ar; na sua forma mais grosseira, entranha-se nas substâncias sólidas.

Pode dizer-se que o Qi é a força alquímica por excelência: Consegue tanto no homem, como no resto da natureza, transmutar a matéria mais bruta no espírito mais puro.

O sopro vital não é uma entidade compacta ou estática. Pelo contrário, ele é por essência mutação. Aliás, a ideia de mutação/transformação é essencial no pensamento chinês que não procede de uma maneira linear ou dialéctica, mas sim, em espiral, por círculos cada vez mais fechados, aprofundando cada vez mais o sentido de um ensinamento, de uma experiência (como se mencionou acima). A realidade é percebida como um movimento ininterrupto cíclico: Um vaivém permanente que nunca regressa exactamente ao ponto de partida, pois existiu toda uma tecedura que permitiu a transformação, o encontro do novo.

O “novo” que se impõe a cada instante. Há que estar preparado para o receber numa permanente relação de troca e aceitação. Esse será o nosso grande desafio: Construirmo-nos incessantemente num caminho em que o regresso nos encontra transformados.

Um constante retorno, sinónimo de aperfeiçoamento.

Um aperfeiçoamento só possível na dimensão afectiva e emocional de uma relação de reciprocidade.

Uma relação de reciprocidade que todos integra numa perfeita sintonia com o Universo.

 

Este foi um texto que escrevi para a revista "Temas e Debates" da minha escola.


Soube-me bem: Reler algumas passagens do meu livro de cabeçeira: "O que disse Tianyi" de François Cheng.

Foi inspirador: Ver as pinturas do meu pintor preferido Zao Wou Ki no site http://www.asianart.com/exhibitions/zao/index.html

Agradeço: À Chiado Editora ter tornado uma realidade a publicação do meu livro:

 

 

publicado por descobrirafelicidade às 00:52
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