Domingo, 27 de Setembro de 2009

Um legado de esperança

 


“Qualquer que seja a extensão do período de vida plena, gozada em completude de aptidões e capacidades, a verdade é que, como reconheceu Trotsky, a velhice é a coisa mais inesperada que nos acontece e, acrescentaria eu, nunca é fácil. Bette Davies dizia que “envelhecer não é para gente fraca.”

A velhice surge muitas vezes sorrateira, pé ante pé, e, subitamente, uma mirada de relance ao espelho, uma fotografia tirada à socapa ou a indiscrição de um “vídeo” revelam-nos os estragos do tempo, a articulação perra, o porte alquebrado, a expressão consumida, como lamentou Nemésio. Outras vezes, instala-se de forma brutal, como uma doença súbita, devastadora, frequentemente como consequência de um cataclismo emocional, que se abate sobre nós com o peso de um século (...)

A verdade é que, inevitavelmente, a expressão limitações da idade tem um sentido negativo, de perda, de progressivo cataclismo social. Por seu lado, limite de idade, tem uma imediata ressonância burocrática de imposição legal, de cessação de funções, de passagem à reforma. É curioso como a expressão reforma sugere a criação de uma outra forma, uma outra encarnação funcional, e na verdade os mais felizes nesse tempo são aqueles que de facto se re-formam.

O termo jubilação que se aplica a professores universitários e juízes, supõe alegria, que terá como dupla o consolo de chegar ao fim com a tranquilidade do dever cumprido e a alvorada de uma nova época em que, finalmente, se consegue fazer o que nunca fora possível antes. (…)

Há alterações qualitativas curiosíssimas que permitem olhar a velhice com optimismo. De facto, sabe-se hoje, desmentindo a noção clássica da invariabilidade do número de células nervosas, que a neuroplasticidade, ou seja, a capacidade de gerar novas células e estabelecer novas conexões nervosas, está presente em toda a vida. Esta capacidade de renovação depende em parte do grau de educação e da persistência em actividades mentais complexas.(…)

Como nota Baltes, há nos velhos um pragmatismo cristalizado, um apuramento da inteligência emocional e da sabedoria, atingindo muitas vezes o cume da excelência humana. Mesmo quando as capacidades declinam, desenvolve-se o que se chama “autoplasticidade adaptativa”, que conduz a uma optimização selectiva como compensação. (…) Aqueles que aplicam selecção, optimização e compensação como estratégias comportamentais sentem-se melhor com eles próprios. (…)

Uma outra descoberta das neurociências relativamente à memória é para mim fascinante. Embora a memória decline com a idade, os velhos retêm melhor as recordações que estão ligadas a experiências emocionalmente positivas que negativas, revelando assim uma espécie de sabedoria emocional. (…)

Quando o horizonte temporal parece encurtar-se, os objectivos orientam-se mais para o bem-estar psicológico e para aquilo que encerra valores emocionais positivos.”

                                                            Eco silencioso, João Lobo Antunes

 

publicado por descobrirafelicidade às 13:48
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