Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Um olhar sobre o pensamento antigo chinês

 

A China é aquele Outro fundamental sem cujo encontro o Ocidente não pode tomar verdadeira consciência dos contornos e limites do seu Eu cultural.”

Simon Leys, Ensaios sobre a China


No início do século XXI ainda parece dominar no Ocidente a imagem de uma China com um pensamento radicalmente diferente, decorrente de uma tradição despótica e de um isolamento secular.

E no entanto… As culturas estão de tal forma ligadas entre si que deveríamos desconfiar de quaisquer (di)visões binárias.

É justamente na interdependência existente entre tudo e todos nós que o pensamento antigo chinês alicerça a sua construção. Esta interdependência é visível nos próprios textos dos pensadores chineses cujas ideias se desenvolvem num grande jogo de remissões. Os textos não constituem sistemas fechados: O seu sentido é elaborado na rede de relações que entre eles se estabelece. Pode dizer-se que o pensamento chinês procede em espiral, aprofundando, cada vez mais, o sentido de uma lição ou de um ensinamento. Aliás, os textos, na educação chinesa, são primeiramente memorizados e depois aprofundados continuamente seja pela consulta, comentários, discurso, meditação – são objecto de uma vivência. Não existe a preocupação em descobrir uma verdade de ordem teórica, mas sim de ordem prática. O pensamento chinês não é da ordem do ser, mas de um processo em desenvolvimento que se afirma e aperfeiçoa na fluência do seu percurso. O seu objecto principal é a procura da harmonia, coerência, equilíbrio. Harmonia nas relações dos homens entre si e na sua sintonia com os ritmos do Universo.

O mundo é percebido como totalidade, a partir do interior dele mesmo (não há razão fora do mundo), numa relação contínua entre o todo e as partes que o constituem. Esta percepção tem a sua representação privilegiada na figura do Yin/Yang: Caminho de um ponto que nasce ao passar pelo Yin e depois, maduro, se transforma no Yang, acabando por descrever um círculo, imagem por excelência da globalidade.

No pensamento chinês não existe separação, mas sim uma polaridade entre dois elementos que não podem existir um sem o outro. “Cara” não é o contrário de “coroa”. Trata-se de uma só e única peça que tem dois lados.

A unidade procurada pelo pensamento chinês é a própria unidade do sopro (Qi), a energia vital que anima o Universo inteiro. É na função reservada ao Qi que se manifesta mais eloquentemente o tema da comunhão com o Universo. Cada um de nós está ligado a tudo o que existe, pois está animado pelo mesmo “sopro”. Mais ainda do que o sopro que anima os seres vivos, o Qi é o princípio da realidade única e una que dá forma a todas as coisas e todos os seres no Universo: O princípio unificador que permite explicar a infinita multiplicidade. Assim, não existe demarcação entre os seres humanos e o resto do mundo.

Ao mesmo tempo espírito e matéria, o “sopro” assegura a coerência orgânica da ordem dos vivos a todos os níveis. Sendo eminentemente concreto ele não é, no entanto, sempre visível ou tangível: “Pode ser o temperamento de uma pessoa ou a atmosfera de um lugar, o poder expressivo de um poema, ou a carga emocional de uma obra de arte”1.

O Qi na sua forma material é leve, forte, subtil e flutua no ar; na sua forma mais grosseira, entranha-se nas substâncias sólidas.

Pode dizer-se que o Qi é a força alquímica por excelência: Consegue tanto no homem, como no resto da natureza, transmutar a matéria mais bruta no espírito mais puro.

O sopro vital não é uma entidade compacta ou estática. Pelo contrário, ele é por essência mutação. Aliás, a ideia de mutação/transformação é essencial no pensamento chinês que não procede de uma maneira linear ou dialéctica, mas sim, em espiral, por círculos cada vez mais fechados, aprofundando cada vez mais o sentido de um ensinamento, de uma experiência (como se mencionou acima). A realidade é percebida como um movimento ininterrupto cíclico: Um vaivém permanente que nunca regressa exactamente ao ponto de partida, pois existiu toda uma tecedura que permitiu a transformação, o encontro do novo.

O “novo” que se impõe a cada instante. Há que estar preparado para o receber numa permanente relação de troca e aceitação. Esse será o nosso grande desafio: Construirmo-nos incessantemente num caminho em que o regresso nos encontra transformados.

Um constante retorno, sinónimo de aperfeiçoamento.

Um aperfeiçoamento só possível na dimensão afectiva e emocional de uma relação de reciprocidade.

Uma relação de reciprocidade que todos integra numa perfeita sintonia com o Universo.

 

Este foi um texto que escrevi para a revista "Temas e Debates" da minha escola.


Soube-me bem: Reler algumas passagens do meu livro de cabeçeira: "O que disse Tianyi" de François Cheng.

Foi inspirador: Ver as pinturas do meu pintor preferido Zao Wou Ki no site http://www.asianart.com/exhibitions/zao/index.html

Agradeço: À Chiado Editora ter tornado uma realidade a publicação do meu livro:

 

 

publicado por descobrirafelicidade às 00:52
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