Domingo, 14 de Março de 2010

A ressonância mútua - Parte I

O destino, assim como tudo o que é humano não se manifesta em abstracto, encarna-se numa qualquer circunstância, num pequeno lugar, numa cara amiga ou num nascimento paupérrimo nos confins de um império.

Nem o amor, nem os encontros verdadeiros, nem sequer os profundos desencontros são obra das casualidades, estão-nos, sim, misteriosamente reservados. Quantas vezes, na vida, me surpreendi por nos cruzarmos, entre as multidões de pessoas que existem no mundo com aquelas que, de alguma maneira possuíam as tábuas do nosso destino, como se tivéssemos pertencido à mesma organização secreta, ou aos capítulos de um mesmo livro! Nunca soube se os reconhecemos porque já os procurávamos, ou se os procuramos porque estão perto dos confins do nosso destino.

O destino mostra-se em signos e indícios que parecem insignificantes, mas que reconhecemos depois como decisivos. Assim, muitas vezes, parece-nos que andamos perdidos na vida, quando, na realidade, caminhamos sempre com um rumo bem definido, por vezes determinado pela nossa vontade mais visível, outras, talvez mais decisivas para a nossa existência, por uma vontade ainda desconhecida até para nós próprios, mas não obstante poderosa e incontrolável que nos vai fazendo caminhar para os lugares onde devemos encontrar-nos com seres ou coisas que, de um modo ou de outro, são, ou foram, ou virão a ser, primordiais para o nosso destino, favorecendo ou contrariando os nossos desejos aparentes, ajudando ou criando obstáculos às nossas ansiedades e, por vezes, o que parece ainda mais assombroso, demonstrando amplamente que estamos mais despertos do que a nossa vontade consciente.”

                                                                                           Ernesto Sabato

 

 

 

publicado por descobrirafelicidade às 10:56
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4 comentários:
De Caminhando... a 15 de Março de 2010 às 15:55
Teresa,

Lindo este texto.
Esta ultima frase resume tão poderoso texto: "estamos mais despertos do que a nossa vontade consciente.”

A cada dia que passa mais sentido me faz pensar que cada coisa tem a sua razão de ser e acontecer. Basta estar atento e desperto para que nada nos passe ao lado e para que consigamos desvendar os porquês de determinados acontecimentos, amadurencendo e enriquecendo assim. E a paz que isso nos traz...

Beijinho
De descobrirafelicidade a 15 de Março de 2010 às 18:00
Ernesto Sabato conseguiu realmente expressar neste texto de uma forma tão poderosa este mistério que é o enredo dads nossas vidas...
A última frase foi, também para mim, a mais significativa e que muito me fez (e faz) reflectir.
Incrivel o nosso destino! Muitos beijos para ti Joana
De Marta M a 16 de Março de 2010 às 21:18
Teresa.
Tal como a Joana, tocou-me o mesmo excerto do texto. Sinto-me exactamente assim no fim das minha sessões de yoga...Como se tomasse consciência de algo que já cá estava dentro a minha espera.
Como entendo...
Abraço grato I
Marta M
De descobrirafelicidade a 18 de Março de 2010 às 00:03
A nossa ressonância neste excerto de texto... Uma maravilha esta nossa harmonia, não? É mesmo gratificante senti-la.

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Descobrir a Felicidade

O tema da felicidade tem dominado os livros, estudos académicos e palestras dos últimos tempos. Inunda campos que vão desde a filosofia política, psicologia, sociologia e literatura até modelos económicos. Procura-se a “fórmula da felicidade” e a solução da “equação da felicidade”. As sociedades modernas parecem ter submergido ao “dever da felicidade”. Esta moda da felicidade em conjunto com a retórica dos livros de auto-ajuda e do pensamento positivo quase me afastou deste projecto que, paradoxalmente, teve o seu embrião justamente com ela: Construir um “portfolio da felicidade”. Muito do que li ajudou-me, de facto, a ter consciência da minha felicidade e a experimentar com maior frequência estados de profundo bem-estar. Partilhar aquelas que considero serem as fontes essenciais da felicidade tornou-se uma prioridade. Cada um é “feliz à sua maneira”, mas a “porta da felicidade abre para fora”, como nos diz Kierkegaard, e gostaria que a “minha” (resultado de tantas outras) fosse uma porta que se abrisse a todos aqueles a quem a casa da felicidade possa acolher.




“L`hiver a cessé: la lumière est tiède
Et danse, du sol au firmament claire.
Il faut que le cœur le plus triste cède
A l`immense joie éparse dans l`air. »

Paul Verlaine


“A conversa com um amigo, a descoberta de um livro, uma gravura, uma visita a um museu, o contacto com a música podem significar momentos de grande apaziguamento, de grande serenidade, de grande enriquecimento interior. É nisso que consiste a felicidade, quando há uma coincidência entre aquilo que nós somos e o Mundo em que estamos.”
Mário Claudio


“Happiness comes from the capacity to feel deeply, to enjoy simply, to think freely, to risk life and to be needed."
S. Jameson





“Tenho uma missão, embora pequena: Ajudar outros que, como eu, andam à procura, quanto mais não seja pelo facto de lhes garantir que não estão sós.”

Herman Hesse

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