Terça-feira, 17 de Novembro de 2009

A rede de Indra e a miragem do "ecológico"

 

“Um texto antigo chamado Avatamsaka Sutra descreve o universo como uma rede infinita gerada pelo desejo de Indra, uma divindade hindu. Em cada conexão dessa rede infinita há uma jóia maravilhosamente polida e infinitamente facetada, que reflecte, em cada uma de suas faces, todas as faces de todas as outras jóias da rede. Uma vez que a própria rede, o número de jóias e o número de faces de cada jóia são infinitos, o número de reflexões também é infinito. Quando qualquer jóia nessa rede infinita é alterada de qualquer forma, todas as outras jóias na rede também mudam.
A história da rede de Indra é uma explicação poética para as conexões algumas vezes misteriosas que observamos entre eventos aparentemente não-relacionados
. [...] À primeira vista, experiências envolvendo partículas subatómicas conduzidos ao longo de algumas décadas sugerem que tudo o que foi conectado num momento retém essa conexão para sempre.”

              Yongey Mingyur Rinpoche, A alegria de viver

 

Por coincidência, ou não, comprei o novo livro de Daniel Goleman, Ecointeligência, no dia em que a minha amiga Marta escreveu o seu post intitulado "O impacto nos outros"  domeulugar.blogs.sapo.pt/8933.html . Só pretendia falar deste livro quando finalizasse a sua leitura, mas depois de ver o post da Marta sinto que não posso deixar de o fazer agora que o iniciei. É que, logo no começo, Daniel Goleman fala-nos na rede de Indra como a imagem da teia infinita de interligações tanto nos sistemas da natureza como nos sistemas industriais. A indústria pode e deve ser encarada como uma espécie de ecossistema com efeitos profundos em todos os sistemas ecológicos.

A rede de Indra recorda-nos que todas as fases de fabrico de um bem apresentam impactos adversos sobre os sistemas naturais. “Nada produzido industrialmente pode ser totalmente ecológico, apenas relativamente ecológico.” Os verdadeiros impactos daquilo que compramos têm sido ignorados no que respeita à maioria dos produtos. Um exemplo será o da T-shirt que D. Goldman comprou com os dizeres: “100% algodão biológico: Faz um Mundo de Diferença”. Sem dúvida, que existem os benefícios da não utilização de pesticidas no algodão biológico, mas omite-se que são precisos dois mil e setecentos litros de água para produzir o algodão de uma T-shirt. O mar de Aral evaporou-se, ficando, no seu lugar, um deserto, em grande parte, devido às necessidades de irrigação das plantações de algodão da região.

Tudo o que é artificial tem incontáveis consequências e acabámos por estabelecer um padrão muito baixo para os produtos ditos ecológicos, pois fixámo-nos numa dimensão única, ignorando múltiplos impactos adversos.

“O ecológico é um processo, não é um estado – temos de pensar no “ecológico” como um verbo e não um adjectivo.” Devemos entender mais profundamente os impactos daquilo que compramos para orientar as nossas escolhas. Quando pudermos fazer opções com base em informações completas, aumentando a nossa inteligência ecológica, será possível, aí sim, caminhar em direcção “ a um destino ecologicamente sustentável e socialmente justo.”

 

Soube-me bem: O passeio que dei há pouco.

Foi inspirador: Começar a ler o livro de Daniel Goleman.

Agradeço: As estrelas no céu.

 

publicado por descobrirafelicidade às 23:44
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2 comentários:
De Marta M a 19 de Novembro de 2009 às 15:27
Teresa:
Com tantos e tão bons livros que nos ajudam a pensar melhor e escolher com mais racionalidade as opções que vamos assumindo, acho fantástico como este partilhar de leituras e citações de bons livros e autores na rede se tornam extremamente úteis. Não consigo ler todos os livros que me interessam, mas com as minhas amigas virtuais é como se pudesse. Basta iniciar as visitas que não faltam assuntos que me interessam imenso, acompanhados de citações que os ilustram na perfeição.
Este livro traz um conceito novo e original, cuja substância me parece conseguiste sintetizar na escolha pessoal que fazes desta citação"(...) temos que pensar no "ecológico" como um verbo, não como um adjectivo".
Inteligente e inovador. Bom destaque - obrigada!
Abraço
De descobrirafelicidade a 19 de Novembro de 2009 às 19:04
Marta
É mesmo fantástica esta rede de partilha de leituras, ideias e sugestões que as nossas amigas virtuais nos proporcionam. Muito obrigada pelas que me tens proporcionado e por toda a tua receptividade. Um abraço alegre

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Descobrir a Felicidade

O tema da felicidade tem dominado os livros, estudos académicos e palestras dos últimos tempos. Inunda campos que vão desde a filosofia política, psicologia, sociologia e literatura até modelos económicos. Procura-se a “fórmula da felicidade” e a solução da “equação da felicidade”. As sociedades modernas parecem ter submergido ao “dever da felicidade”. Esta moda da felicidade em conjunto com a retórica dos livros de auto-ajuda e do pensamento positivo quase me afastou deste projecto que, paradoxalmente, teve o seu embrião justamente com ela: Construir um “portfolio da felicidade”. Muito do que li ajudou-me, de facto, a ter consciência da minha felicidade e a experimentar com maior frequência estados de profundo bem-estar. Partilhar aquelas que considero serem as fontes essenciais da felicidade tornou-se uma prioridade. Cada um é “feliz à sua maneira”, mas a “porta da felicidade abre para fora”, como nos diz Kierkegaard, e gostaria que a “minha” (resultado de tantas outras) fosse uma porta que se abrisse a todos aqueles a quem a casa da felicidade possa acolher.




“L`hiver a cessé: la lumière est tiède
Et danse, du sol au firmament claire.
Il faut que le cœur le plus triste cède
A l`immense joie éparse dans l`air. »

Paul Verlaine


“A conversa com um amigo, a descoberta de um livro, uma gravura, uma visita a um museu, o contacto com a música podem significar momentos de grande apaziguamento, de grande serenidade, de grande enriquecimento interior. É nisso que consiste a felicidade, quando há uma coincidência entre aquilo que nós somos e o Mundo em que estamos.”
Mário Claudio


“Happiness comes from the capacity to feel deeply, to enjoy simply, to think freely, to risk life and to be needed."
S. Jameson





“Tenho uma missão, embora pequena: Ajudar outros que, como eu, andam à procura, quanto mais não seja pelo facto de lhes garantir que não estão sós.”

Herman Hesse

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